Certo dia, um homem procurou um sábio e lhe perguntou:
_ Meu velho, sei que você vai dizer que é preciso ter fé. Mas não entendo por que há tantas dificuldades em minha vida. Tenho muita fé em Deus. Nunca deixo de rezar. Minha fé é tão grande, mas tão grande que não entendo por que a vida persiste a me castigar. Procuro fazer o bem. Sempre que me pedem uma ajuda, não nego. Já ajudei muita gente. Pode perguntar a qualquer pessoa que me conhece. Sigo todos os preceitos de minha religião. Estou sempre no templo, orando. Não saio de lá.

Agora diga-me, meu velho sábio, por que ainda persiste o sofrimento em minha vida.
O sábio, com seu cajado nas mãos, caminhou alguns passos com ele e disse-lhe calmamente:
_ Meu filho, só você mesmo pode dizer por que o sofrimento persiste. Se há situações que se repetem e fazem o sofrimento novamente acontecer, significa que você está ganhando uma nova oportunidade de assimilar o aprendizado, pois se assim não fosse, seria bem pior.

Você me falou que tem muita fé (risos). Meu filho, não diga isto a ninguém. Muito menos a si mesmo. Pois se assim fosse, você poderia fazer como nos ensinou o Mestre dos mestres, você poderia mover montanhas. Meu querido, nossa fé é menor que um grão de mostarda. E percebe-se a pequenez deste sentimento quando alguém ergue o peito para dizer que possui uma fé inabalável. Quem tem uma fé maior que um grão de mostarda se reserva no silencio da humildade.

Uma fé maior que um grão de mostarda, nota-se pelas suas ações, pois uma árvore se conhece pelos seus frutos. Quando se faz uma boa ação não convém sair por aí gritando aos quatro cantos do mundo que ajuda muita gente. O que a esquerda dá a direita não vê.

Se você reza muito, não possui tempo para meditar. Rezar é o ato de falar com Deus. Meditar é ouvir a voz Dele. E essa voz mora dentro de ti. Não precisas olhar para o céu para falar com Ele. Ele não está tão longe assim.
Se você cumpriu com tudo o que determina a sua religião e me questiona, entendo que seus preceitos foram intencionados em conseguir algo em troca. Então usastes o templo para barganhar com a Divindade. Se saísses um pouco lá de dentro, você veria o mundo tal como ele é. Com cegos, leprosos, mendigos e analfabetos. Gente que ouve você dizer no templo: “O pão nosso … daí-nos hoje”, sem pedir que também dê o pão a seus irmãos, pois eles também tem fome.

Assim, meu filho, não diga que tens muita fé. Não propague a caridade que vem de teu coração, pois ela engrandece-te, mas humilha quem recebe.

E lembre-se que o Criador se encontra em um lugar muito especial; no brilho dos olhos dos teus semelhantes.

Ronaldo Figueira