Minha homenagem a José Angelo Gaiarsa, falecido dia 16 de outubro de 2010 com 90 anos de idade.
Eu era jovem, cerca de vinte anos de idade. Entrei em seu consultório. Havia uma imagem na parede, parecia uma foto, de uns trinta centímetros de altura talvez – Jesus sorria.
Assim conheci Gaiarsa, que na intimidade de minha mente eu chamava de José Angelo. Angelo de Anjo. Anjo do Bem, que desmistificava conceitos obtusos e falsos de família entre tantas outras coisa absurdas.

Foi um libertador.
Libertava homens e mulheres das amarras criadas por sociedades torturadoras.
Quem me indicara seu nome fora Dodi Maia Rosa, artista plástico, amigo de um amigo.
Minhas inquietações dos vinte anos. Sem dúvida, dizia Dodi, ele poderá ajudá-la.
Quanto ajudou.
Fazíamos terapia em grupo. Nem me lembro quantas pessoas éramos. Quem era eu, entao?
Já nem reconheço a jovem mulher procurando liberdade para ser, sentir, interser, viver sem medos, culpas, rancores, dores.
Jesus sorria.
Gaiarsa era leve, macio, firme forte.
A sensualidade não entrou em nosso relacionamento.
Havia algo muito, mas muito maior. Alguma coisa mais importante.
Ele me ouvia, ele me entendia, ele me libertava de mim mesma.
Eu o ouvia, eu o entendia, eu me ouvia, eu me entendia, eu me libertava de mim mesma.
Depois me tornei jornalista, abandonei jornalismo, viajei o mundo.
Entrei para o Zen, tornei-me monja e o reencontrei.
Ambos palestrantes em algum local.
Não na mesma mesa, não no mesmo momento.
Mas ele estava lá.
Lindo, radiante, forte, macio, exuberante.
Abracei e beijei meu amado amigo, mestre, terapeuta – gente de verdade.
Tanto meu entusiasmo que ele me disse: “chega”.
Será que eu posso parar de o agradecer? Chega de chegar ou chega de não chegar?
As inúmeras mudanças e transformações de minha vida estão amarradas ao seu cérebro brilhante, incessante, luminoso.
Alguns o chamavam de Guru.
Gaiarsa foi um mestre.
Um grande mestre da vida.
De apreciar a vida.
De libertar seres.
Sem máculas, sem manipulações.
E o reencontro novamente, numa ordenação monástica no Mosteiro de São Bento.
Carregava uma bengala, que o carregava com ela.
Sorrindo.
Fez outro monge? Psiquiatra que transforma pessoas em religiosos das mais diferentes ordens espirituais.
No caminho, caminhamos.
Agora me despeço de você comovida. Como vida.
Na última vez que o vi, tomava café com leite, pão com manteiga ao lado de Otávio Leal na Humaniversidade.
Morreu dormindo, por volta das cinco horas da manhã, sábado, disse sua neta aos jornais.
Estarei orando por 49 dias, de sete em sete dias, todas as sextas feiras – afinal não eram as sextas feiras nosso grupo de terapia?
Orando – que passe por todos os bardos como uma luz brilhante.
Que ilumine e liberte a todos e todas que se encontrem em seu caminho.
Que irradie essa inteligência exuberante, essa ternura encantadora à toda criação.
Ser mestre, ser mestra é libertar pessoas.
É fazer com que cada ser encontre sua plenitude.
É o fazer sem o fazer…apresentar, criar condições e percepções mais amplas. Sem medo, pois tudo e todos estão interligados, interconectados.
Ser mestre não é ter uma cadeira especial e uma reverência formal.
É, sem esperar nada em troca, fazer o bem.
Fazer o bem a todos os seres.
Na Ordem dos Fazedores da Paz, Zen Peacemaker Order, os Três Preceitos de Ouro do Budismo são assim interpretados:
O tradicional Não fazer o mal se torna Não saber, abandonar idéias fixas sobre eu mesma e o universo
O tradicional Fazer o Bem se torna Testemunhar o sofrimento e as alegrias do mundo
O tradicional Fazer o Bem a Todos os Seres se transforma em Ações Amorosas
José Angelo Gaiarsa, cidadão de Gaia, foi, é e sempre será capaz de manter esses Três Preceitos Puros.
Sua obra continua em seus livros, DVDs, discípulos, filhos, netos e netas, palestras e em todas nós que o ouvimos e o entendemos.
Budas não aparecem nem desaparecem.
Na paz de Nirvana.
Mãos em prece
Monja Coen