Uma parábola tão conhecida merece um pouco mais de reflexão acerca de seu conteúdo.
A princípio, precisamos identificar os objetos: o joio – erva daninha, praga; trigo – o alimento, a plantação.
Jesus usava uma linguagem simples, razão pela qual optou em buscar exemplos no cotidiano dos trabalhadores daquela época. Nos dias de hoje, poderíamos dizer que devemos separar o vírus de computador dos bons softwares.
A partir desse pressuposto, podemos começar nossa observação. O trigo, ou o “software” é nada menos que algo de bom. Sim, mas o joio, o vírus? Quem é ou o que é?
Muitos interpretam esta passagem do ponto de vista sócio mundial, isto é, povos bons e maus. Outros, dentro da mesma nação, entendem serem os pertencentes à sua cultura, como o trigo. Logo, uma cultura diferente seria o joio.
De certo, há dois mil anos, os hebreus acreditavam ser o povo escolhido. Esse pensamento até hoje encontra ressonância nas mentes daqueles que não aceitam uma sociedade plural. Eis porque alguns enxergam em seus afins o trigo e em seus desafetos, o joio.
Caminhando um pouco mais nessa seara, encontramos um raciocínio pautado na classificação que fazemos agora, baseado nas ações dos nossos semelhantes. Assim, quando sintonizamos no noticiário policial e, ao ficarmos estarrecidos com as crueldades que assolam o mundo afora dizemos: Será que chegou a hora de separarmos o joio do trigo?!
Entretanto, convido-vos a fazer uma reflexão diferente sobre esta premissa. Será que o “Divino Rabi da Galiléia” se referiu a pessoas quando falou em separar o joio do trigo?!
Dentro de uma análise mais introspectiva, podemos encontrar o joio e o trigo dentro de nós mesmos. Assumindo que a erva daninha se encontra também em nossos corações, entendemos que precisamos nos preparar para o momento da colheita.
Nesse sentido. Há necessidade de mergulharmos em nosso interior, precisamos usar as lentes corretivas do discernimento para observar com precisão, onde se encontra a erva daninha de nosso ser.
Assim como há lobos em pele de cordeiro, também existe dentro de nós, joio com cara de trigo. É difícil assimilar, mas muitas vezes, nossa intenção foi plantar boa semente, mas a praga do orgulho ali brotou. É quando a olhamos e enxergamos ali um broto inofensivo. Por anda regarmos esta erva daninha com o veneno do orgulho, acreditando estar fazendo um bom plantio.
Outras vezes ocorre o contrário. Ao observarmos o jardim de nossa consciência, a dor do remorso nos ofusca a visão, fazendo-nos crer que foi plantado aonde cresce um lindo trigo.
Considerando essas razões, chegamos a algumas conclusões. É muito fácil olharmos para nossos irmãos e achar que eles são o joio. Contudo, sabemos que o que mantemos em nossos corações não se restringe apenas ao trigo. Se deixarmos a erva daninha nos sufocar de ira, revolta, impaciência, rebeldia e tantas outras pragas, não poderemos atirar a primeira pedra, sob pena de sermos nós o ceifados da próxima colheita.
Quanto ao nosso plantio interior, necessitamos orar e adubar a terra, ou, usando um exemplo contemporâneo, precisamos instalar alguns “antivírus” em nosso “sistema”. Assim, estaremos vacinados com as dádivas da compreensão, discernimento e sabedoria, a fim de que o adubo do autoperdão possa fortificar os corações amargurados pelo remorso, razão de nossas aflições.
Deste modo, teremos energia suficiente para nos concentrarmos naquilo que, de fato, é o causador dos males do espírito. E assim, separar-se-á o joio do trigo.

Ronaldo Figueira