Lá vai Maria;
Vai bater tambor;
Pediu o axé do santo;
Na fé que não causa espanto;

Lá vai Maria;
Em nome do Senhor;
Na luta diária, sentindo os calos arder;
Entoando em seu peito: “O sangue de Cristo tem poder”;

E assim vai Maria, nessa luta, uma eterna agonia;
Fome, miséria, solidão;
Quer a promessa de um bom emprego;
Quer viver uma paixão;

Outrora, menina moça;
Sonhava com seu belo marido;
Fazia promessa a Santo Antonio;
Pra ver se arrumava um partido;

Foi na encruza, chamou Zé Pelintra;
Botou no peito uma rosa;
De saia rodada;
Pra se tornar mulher mais formosa;

Foi até sua igreja;
Orou, orou, orou;
Pediu ao pastor misericórdia;
Com seus irmãos luteranos a infeliz congregou;

Disse ao sacerdote;
Já venceram minhas contas de água, luz e gás;
Pra chegar à terra prometida;
Como é que a gente faz;

Terra prometida, Maria aprendeu nas escolinhas da catequese;
Maria, filha de Maria, do catecismo tem boa recordação;
Tempo em que namorava um rapaz;
Forte, de aparência contumaz;

Amor este, nunca mais viveu;
Pois o homem era cigano;
Após sete meses, concluiu ser ledo engano;
O moço charmoso desapareceu;

No desespero da vida vazia;
Não agüentava mais de agonia;
Foi até Zezé feiticeiro;
Confessou toda a sua dor;

Com semblante de bom ouvinte;
Não hesitou em ir direto ao assunto;
Não perdia tempo em serviço;
Assim era com todo mundo;

Pra “vós suncê, fia” ter sorte na vida;
Tem que fazer um trabaio;
Dando-me um galo e uma onça;
Te arrumo a vida até os fins de maio;

Donde vou encontrar a danada dessa onça, perguntou Maria;
Zezé Feiticeiro respondeu com maestria;
Pode caçar aquela que fica na nota de cinqüenta reais;
Me dê sete daquelas e tu vai ver o bem isso te faz;

Indignada com seu desejo mesquinho;
Deixou o nego velho falando sozinho;
Lembrou do dia que levou o dízimo à igreja;
E surpreendeu o sacerdote com garrafas de cerveja;

Cansada de tanto sofrer;
Maria decidiu;
Até o dia em que morrer;
Não dará dinheiro a ninguém que venda a fé neste Brasil.